Efeito Werther e a Mídia

O Efeito Werther foi criado por Phillips (1974)-Inspirado pelas mortes por suicídio (S.) de jovens na Alemanha que se vestiam, se comportavam ou imitavam o modo da morte de Werther.

Hoje é utilizado para referir-se ao aumento de casos após reportagens sensacionalistas sobre S., podendo ser sobre histórias reais, celebridades e obras artísticas.

Vale ressaltar que as evidências ainda são limitadas, seja pela falta de estudos ou a grande variação de efeito que existem entre eles, porém, que o efeito existe é evidente (NIEDERKROTENTHALER et al., 2021). Como é visto também nos seguintes estudos:

-Aumento de 9-27% de S. após obras ficcionais ou de casos (NIEDERKROTENTHALER et al., 2021);

-8-18% de aumento após notícias sobre celebridades (NIEDERKROTENTHALER et al., 2020);

-Ou até mesmo o famoso estudo sobre o aumento de 10%, após divulgação da morte de Robin Williams (FINK et al., 2018).

Porém, a discussão que quero levantar é sobre seus processos.

E aqui não quero entrar no mérito de que falar sobre S. é prejudicial ou não, até porquê existem pesquisas que demonstram como falar e perguntar, desde que de modo correto, não aumenta ideações ou planejamentos, mas sim, abre caminho para redução do estigma (DAZZI et al., 2014).

Essas notícias propagadas de modo incorreto possuem um efeito nocivo sobre o humor, autoestima e pensamentos sobre S. Principalmente naqueles que já pensaram em S. podendo ampliar seu repertório de comportamentos e intensificar suas ideações (POULIOT et al., 2015; TILL et al., 2011).

Por isso, é encontrado um aumento de mortes por S. que imitam o método divulgados em notícias sensacionalistas, que tratam o evento como inevitável ou simplista. Em que nós não podemos colocar a culpa no leitor que possui vulnerabilidades, já que é a mídia que trata de forma incorreta o tema (NIEDERKROTENTHALER et al., 2021; NIEDERKROTENTHALER et al., 2020).

Alguns dos mecanismos que contribuem para esse fato:

-Identificação com o falecido;

-Reportagens sensacionalistas ou normalizadoras, tratando como algo simples ou até aceitável, muitas vezes, apresentando explicações simplistas para o S;

-Divulgação de métodos;

-Mitos públicos perpetuados;

-Ideias dicotômicas sobre S;

-Uso de termos pejorativos.

CUIDADO!

Existem reportagens/perfis que se utilizam da opinião de ditos “especialistas” no tema e fatos epidemiológicos em conjunto com conteúdos sensacionalistas, como forma de dar credibilidade a notícia e angariar mais público. O que se mostrou também associado ao aumento nas taxas de S.

E além disso, a OMS (2002)  publicou um manual, como parte do seu programa SUPRE, para direcionar o que pode ou não fazer na cobertura midiática do S.

Além dos pontos anteriormente destacados, é expresso que não se deve:

  1. Não publicar fotografias do falecido ou cartas suicidas;
  2. Não informar detalhes específicos do método utilizado;
  3.  Não fornecer explicações simplistas
  4. Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso
  5.  Não usar estereótipos religiosos ou culturais
  6.  Não atribuir culpas.

 

Mas ao menos os profissionais seguem  as diretrizes?

Bom, a grande maioria sim. Mas, alguns praticam que chamamos de Marketing Amarelo, que é basicamente falar sobre o assunto, muitas vezes, de modo incorreto, apenas para obter visualizações em momentos oportunos em que se noticia algo relacionado, mais evidente quando se trata de uma celebridade. Então, cuidado com quem você escuta.

 

CERTO!

MAS O QUE DEVEMOS FAZER ENTÃO?

 

A mídia, ao mesmo tempo que pode prejudicar, pode também prevenir.

Devemos trabalhar dentro do que chamam de: Efeito Papageno (NIEDERKROTENTHALER et al., 2010).

Ele é sobre focar em dar alternativas de locais de ajuda

(UBS, CAPS, CVV, MAPA DA SAÚDE MENTAL, CLÍNICAS ESCOLAS, PSICÓLGOS E PSIQUIATRAS…)

E informações que conscientizem e combatam os estigmas.

A OMS NO MESMO DOCUMENTO CITADO, OFERECE AS SEGUINTES DIRETRIZES PARA SEGUIR SOBRE “O QUE FAZER?”.

 

  1. Trabalhar em conjunto com autoridades de saúde na apresentação dos fatos. 
  2. Apresentar somente dados relevantes, em páginas internas de veículos impressos. Destacar as alternativas ao suicídio. 
  3.  Fornecer informações sobre números de telefones e endereços de grupos de apoio e serviços onde se possa obter ajuda. 
  4.  Mostrar indicadores de risco e sinais de alerta sobre comportamento suicida.

 

Em contribuição, reportagens com enfoque em alternativas e histórias de enfrentamento às ideações, se mostram eficazes. Enfocando sobre como/o que fazer para ajudar ou buscar uma melhora.

Portanto, ainda existe a necessidade de conscientização da população e veículos de mídia, incluindo nós profissionais, para abordarmos devidamente essa temática.

 

REFERÊNCIAS:

DAZZI, Tommaso et al. Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence?. Psychological medicine, v. 44, n. 16, p. 3361-3363, 2014.

FINK, David S.; SANTAELLA-TENORIO, Julian; KEYES, Katherine M. Increase in suicides the months after the death of Robin Williams in the US. PloS one, v. 13, n. 2, p. e0191405, 2018.

NIEDERKROTENTHALER, Thomas et al. Role of media reports in completed and prevented suicide: Werther v. Papageno effects. The British Journal of Psychiatry, v. 197, n. 3, p. 234-243, 2010.

NIEDERKROTENTHALER, Thomas et al. Association between suicide reporting in the media and suicide: systematic review and meta-analysis. Bmj, v. 368, 2020.

METELSKI, Giuliano et al. O efeito Werther e sua relação com taxas de tentativas de suicídio: uma revisão narrativa. Research, Society and Development, v. 11, n. 10, p. e267111032630-e267111032630, 2022.

NIEDERKROTENTHALER, Thomas et al. Systematic review and meta-analyses of suicidal outcomes following fictional portrayals of suicide and suicide attempt in entertainment media. EClinicalMedicine, v. 36, 2021.

Phillips DP. The influence of suggestion on suicide: substantive and

theoretical implications of the Werther effect. Am Sociol Rev 1974; 39:

340–54.

POULIOT, Louise et al. The Werther effect reconsidered in light of psychological vulnerabilities: Results of a pilot study. Journal of affective disorders, v. 134, n. 1-3, p. 488-496, 2011.

TILL, Benedikt et al. Determining the effects of films with suicidal content: a laboratory experiment. The British Journal of Psychiatry, v. 207, n. 1, p. 72-78, 2015.

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